Opinião/Informação:
Ninguém questiona a importância dessa balsa. Ela resolve um problema real enfrentado por famílias que, durante décadas, precisaram caminhar e depender de pequenas canoas para atravessar um lago. O que é inaceitável é que, em um estado que movimentou bilhões de reais em nome da preservação da Amazônia e da proteção das populações tradicionais, uma simples balsa seja apresentada como uma grande conquista. Isso não representa desenvolvimento. Representa o retrato do abandono. O caboclo amazônida preserva a maior floresta tropical do planeta, presta um serviço ambiental reconhecido mundialmente e, em troca, continua vivendo sem a infraestrutura mínima que qualquer cidadão deveria ter. Enquanto governos, ONGs, organismos internacionais e fundos ambientais anunciam bilhões de reais para a Amazônia, o povo continua comemorando aquilo que deveria ter chegado há 30 ou 40 anos.
Onde foi parar esse dinheiro?
Quantas pontes, estradas vicinais, escolas, postos de saúde, sistemas de água, internet, energia e logística poderiam ter sido construídos com os recursos destinados à Amazônia? A resposta está diante dos nossos olhos: comunidades inteiras ainda vivem como se estivessem esquecidas pelo poder público, enquanto discursos sobre sustentabilidade são aplaudidos em conferências internacionais. A balsa merece reconhecimento por aliviar o sofrimento daquela comunidade. Mas ela também escancara um fracasso histórico. Depois de tantos bilhões anunciados em nome do ribeirinho, ainda se inaugura uma travessia rudimentar como se fosse símbolo de desenvolvimento. O povo amazônida não precisa de discursos nem de marketing ambiental. Precisa que os recursos destinados à Amazônia finalmente se transformem em qualidade de vida. Porque quem conserva a floresta não pode continuar recebendo migalhas enquanto bilhões circulam em seu nome. Essa balsa não deveria ser motivo de festa; deveria servir de alerta e de cobrança sobre o destino dos recursos que, há décadas, prometem desenvolvimento para a Amazônia, mas raramente chegam à vida de quem mais preserva esse patrimônio.
THOMAZ RURAL




