Opinião/Informação:
Nada contra a cunhã do meu Garantido Isabelle Nogueira, sua atividade profissional junto à NATURA é corretíssima. Contudo, penso que ela precisa fazer uma reflexão sobre os valores pagos pela NATURA ao povo da FLORESTA em PÉ.
A recente propaganda em torno da criação da “Natura Ingredientes” soa como mais um conto de fadas do mundo corporativo. A empresa infla o peito para anunciar que, em 2025, investiu R$ 62,39 milhões nas comunidades fornecedoras, envolvendo mais de 11 mil famílias na Pan-Amazônia. Nos relatórios ESG e nas campanhas publicitárias de horário nobre, o selo de “guardiã da floresta” brilha intensamente. Mas basta fazer uma conta simples para que o verniz do marketing de sustentabilidade derreta por completo.
Vamos aos números frios: R$ 62.390.000 divididos por 11.000 famílias resultam em cerca de R$ 5.671 por ano para cada núcleo familiar. Dividindo esse montante por 12 meses, chegamos ao valor irrisório de R$ 472,65 por mês por família. Se considerarmos uma família média de quatro pessoas, o impacto real do que a Natura chama de “fortalecer a economia baseada na manutenção da floresta” é de míseros R$ 118 mensais por pessoa.
É com esse valor de miséria, que sequer cobre as necessidades mais básicas de subsistência, que a empresa afirma estar “gerando novas oportunidades de renda”?
A assimetria é brutal e revoltante. Enquanto as famílias que suam e trabalham na ponta da cadeia recebem centavos, a Natura se apropria de forma maciça da marca “Amazônia”. O nome da floresta e de seus bioingredientes — como andiroba, tucumã, castanha-do-pará e priprioca — estampa embalagens vendidas a preços de luxo nos maiores mercados globais. A empresa deve lucrar bilhões alavancada pelo apelo da sociobiodiversidade e pela estética do “comércio justo”, enquanto quem efetivamente mantém a floresta em pé continua imerso na pobreza.
O que a corporação tenta nos vender como uma revolução da “bioeconomia amazônica” é, na prática, a perpetuação de uma lógica colonial. Transformar os povos e comunidades tradicionais em meros fornecedores de matéria-prima barata, enquanto a corporação detém e lucra com todo o valor agregado do produto final, não é sustentabilidade: é o velho extrativismo predatório embalado em uma caixa de papel reciclável.
Manter a floresta em pé e proteger a biodiversidade exige sacrifício e tem um custo alto. Pagar R$ 118 reais por mês para quem faz esse trabalho não é “agregar valor”, é comprar um selo verde a preço de banana. Já passou da hora do mercado e dos consumidores pararem de romantizar a exploração.

Não sou contra a ação da NATURA, mas a questão renda, dinheiro no bolso de quem fornece tem que vir a tona. Fiz a conta com base na matéria do FLORESTAL_BRASIL. O espaço está aberto para ponderações. Será essa a bioeconomia dos ongueiros?
THOMAZ RURAL


