Opinião/Informação:
É muito bom ver o potencial do Amazonas ser destacado. Hoje, vejo o Fabiano Bó tocar em nosso pontencial da piscicultura. De fato, é inegável! No final do texto o autor mostra, claramente, onde está o nó para ganhamos escala. Adianto que isso só vai mudar quando tirarmo ongueiros que estão dentro do governo há mais de uma década jogando contra, sendo parceiro de ONGs que querem nos ver vivendo de misérias, de bolsas miseráveis.
Artigo publicado no Jornal do Commercio deste fim de semana…
THOMAZ RURAL
[ARTIGO DO CORONEL FABIANO BÓ]
O peixe pode redefinir o futuro econômico da Amazônia
Durante décadas, a Amazônia foi observada internacionalmente como patrimônio ambiental, reserva estratégica de biodiversidade e símbolo das discussões climáticas globais. Pouco se percebeu, porém, que a região também abriga uma das maiores possibilidades de produção alimentar sustentável do planeta. Em um mundo pressionado pelo crescimento populacional, pela demanda crescente por proteína animal e pela necessidade de sistemas produtivos menos agressivos ao meio ambiente, a água passou a ocupar posição central dentro da geopolítica da segurança alimentar. E poucos territórios concentram condições tão favoráveis para a produção aquícola quanto a Amazônia brasileira.
A piscicultura deixou de ser uma atividade secundária e passou a integrar um dos segmentos mais promissores do agronegócio mundial. Segundo dados do Anuário Peixe BR 2026, a produção brasileira de peixes cultivados ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 milhão de toneladas em 2025, consolidando crescimento de 4,41% em relação ao ano anterior. O levantamento também aponta o fortalecimento dos peixes nativos dentro da cadeia aquícola nacional, especialmente espécies amazônicas como tambaqui e pirarucu, que ganharam espaço tanto no abastecimento interno quanto em mercados gastronômicos de maior valor agregado.
A relevância econômica desse avanço vai muito além da produção em si. A piscicultura reúne características cada vez mais valorizadas no cenário internacional. Trata-se de uma atividade com elevada eficiência alimentar, menor emissão de carbono em comparação a outras proteínas animais e forte capacidade de expansão sem exigir os mesmos níveis de ocupação territorial observados em outros modelos produtivos. Em um contexto global de preocupação crescente com sustentabilidade e segurança alimentar, produzir proteína a partir da água passou a representar não apenas oportunidade econômica, mas vantagem estratégica.
Nesse cenário, a Amazônia ocupa posição singular. A região reúne disponibilidade hídrica incomparável, clima favorável e espécies nativas altamente adaptadas às condições ambientais locais. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o consumo de pescado na Região Norte permanece entre os maiores do país, refletindo uma relação histórica entre alimentação, economia regional e recursos pesqueiros. Em diversas áreas do interior amazônico, o peixe não representa apenas atividade comercial. Ele integra a própria base alimentar e econômica das populações locais.
Entretanto, transformar esse potencial em desenvolvimento concreto continua sendo um dos grandes desafios regionais. A cadeia produtiva da piscicultura ainda enfrenta gargalos estruturais significativos, especialmente relacionados ao custo de produção. Segundo estudos técnicos da Embrapa Pesca e Aquicultura, a alimentação dos peixes pode representar até 70% do custo operacional da atividade. Isso faz com que estados integrados à produção de milho e soja possuam vantagem econômica importante dentro do setor aquícola nacional.
Essa dinâmica ajuda a explicar o protagonismo de Rondônia na produção brasileira de peixes nativos cultivados. Segundo o Anuário Peixe BR 2026, o estado ultrapassou 55 mil toneladas produzidas em 2025 e consolidou liderança nacional no segmento. A integração entre piscicultura, produção de grãos e logística terrestre criou um ambiente mais competitivo e economicamente eficiente. Enquanto isso, o Amazonas ainda enfrenta obstáculos relacionados ao transporte regional, à dependência fluvial, ao elevado custo de insumos e às limitações de infraestrutura em boa parte do interior.
Os eventos climáticos extremos registrados recentemente agravaram ainda mais esse cenário. As estiagens severas dos últimos anos comprometeram a navegabilidade dos rios amazônicos, afetando diretamente o abastecimento, o transporte de cargas e o funcionamento da economia regional. Segundo dados oficiais do Porto de Manaus, o Rio Negro registrou em 2024 a menor cota já monitorada historicamente. Em uma região onde os rios representam a principal estrutura de circulação econômica, qualquer interrupção prolongada impacta imediatamente a produção, o abastecimento e a estabilidade das cadeias produtivas.
Mesmo diante dessas limitações, a piscicultura permanece como uma das atividades de maior capacidade transformadora para a economia amazônica. Além da geração de renda e da produção de alimentos, a atividade possui forte potencial de interiorização econômica, permitindo criação de oportunidades fora dos grandes centros urbanos. Em muitos municípios, a produção de pescado já ocupa papel relevante na movimentação econômica local, fortalecendo pequenos produtores, agricultura familiar e cadeias regionais de abastecimento.
O futuro econômico da Amazônia provavelmente passará pela capacidade de transformar recursos naturais em cadeias produtivas sustentáveis, tecnologicamente eficientes e socialmente integradas à realidade regional. E poucas atividades sintetizam tanto essa possibilidade quanto a piscicultura. O desafio não está em provar que a Amazônia possui potencial. Isso os números já demonstram. O verdadeiro desafio consiste em criar condições estruturais para que a região consiga converter sua abundância hídrica em desenvolvimento, competitividade e estabilidade econômica de longo prazo.



