📅 Carregando data...
Ovos São Pedro

Ovos São Pedro

Ovo novo todo dia. Qualidade e nutrição direto para a sua família!

Visitar Site
Super Vitória

Super Vitória Supermercados

As melhores ofertas e produtos selecionados para o seu dia a dia.

Conhecer Ofertas
📢

Seja um Patrocinador Oficial

Destaque sua marca para milhares de leitores do agronegócio diariamente.

Anuncie Conosco

Quando a carne do Amazonas estiver pronta para ganhar o mundo

O mercado internacional de carnes não começa no porto, no contêiner ou na fronteira. Começa muito antes, dentro da propriedade rural, onde cada etapa da produção precisa ser capaz de atender a padrões que ultrapassam as fronteiras do país. O Brasil conhece bem essa exigência. A carne bovina brasileira conquistou espaço em dezenas de mercados e transformou o setor em uma das grandes forças do comércio exterior nacional. Para o Amazonas, a questão que se apresenta agora é outra e mais decisiva. Como transformar o crescimento do rebanho em uma cadeia produtiva capaz de produzir, certificar, processar e entregar uma proteína com padrão internacional?

Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa oportunidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rebanho bovino amazonense ultrapassou 2,6 milhões de cabeças em 2024. É uma marca expressiva para um Estado que durante décadas teve na pecuária uma atividade concentrada em determinadas regiões e fortemente vinculada ao abastecimento interno. Municípios como Lábrea, Boca do Acre, Apuí e o distrito de Santo Antônio do Matupi estão entre os principais polos dessa produção. O crescimento do rebanho, entretanto, não pode ser medido apenas pelo número de animais. O salto seguinte está na capacidade de transformar volume em valor, produção em produto certificado e matéria-prima em proteína com condições de disputar mercados mais exigentes.

A sanidade animal ocupa lugar central nessa transformação. Em 2025, o Amazonas alcançou o reconhecimento internacional como zona livre de febre aftosa sem vacinação, uma conquista que retirou uma das principais barreiras sanitárias à ampliação dos mercados para a pecuária amazonense. O reconhecimento não representa a conclusão do caminho. Representa, na verdade, uma porta que se abre. A partir dela, tornam-se ainda mais importantes a vigilância permanente, o controle sanitário, a identificação dos animais, a regularidade das propriedades e a capacidade de demonstrar a origem da produção. No comércio internacional, qualidade não é apenas uma característica do produto. É também a capacidade de comprovar, documentalmente, de onde ele veio e sob quais condições foi produzido.

É nesse ponto que a pecuária amazonense precisa dar seu próximo passo. Produzir mais é importante, mas produzir melhor é indispensável quando o objetivo deixa de ser apenas atender ao mercado regional e passa a incluir compradores de outros países. Isso significa fortalecer a inspeção, ampliar a rastreabilidade, estimular a regularização das propriedades e assegurar que os frigoríficos tenham condições de processar uma produção compatível com as exigências dos mercados de destino. Significa também enfrentar um dos obstáculos históricos do Amazonas, a logística. A distância dos grandes centros consumidores e exportadores não pode ser ignorada. Transporte, armazenamento, processamento e escoamento precisam funcionar como partes de uma mesma cadeia, porque uma proteína de qualidade perde competitividade quando o custo para fazê-la chegar ao comprador se torna excessivo.

Mas há uma condição anterior a todas essas etapas que não pode ser ignorada. A falta de regularização fundiária ainda cria obstáculos para produtores que precisam de segurança jurídica para investir, acessar crédito e formalizar plenamente sua atividade. Nesse ponto, a responsabilidade do Governo Federal precisa ser cobrada, especialmente nas áreas sob competência da União. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tem papel fundamental nesse processo, e o avanço da regularização é indispensável para que propriedades rurais possam integrar uma cadeia produtiva cada vez mais exigente.

Não se pode cobrar rastreabilidade, conformidade ambiental e sanitária e, ao mesmo tempo, deixar sem solução a situação fundiária de parte de quem está na base da produção. Regularizar a terra também é preparar o produtor para produzir, certificar e acessar novos mercados. A segurança jurídica da propriedade precisa caminhar junto com a evolução sanitária e produtiva da pecuária, porque uma cadeia que pretende alcançar o mercado internacional precisa demonstrar não apenas a qualidade da carne, mas também a regularidade de sua origem.

O cenário brasileiro mostra que existe mercado para quem consegue reunir escala, regularidade e qualidade. As exportações nacionais de carne bovina alcançaram patamares históricos nos últimos anos, impulsionadas pela abertura de novos destinos e pela capacidade da indústria brasileira de atender diferentes padrões de consumo. O Amazonas não precisa reproduzir modelos de outras regiões para participar desse movimento. Precisa construir sua própria capacidade produtiva, considerando as características econômicas, territoriais e ambientais do Estado. A competitividade amazonense poderá estar justamente na combinação entre produção pecuária, tecnologia, controle sanitário e uma cadeia capaz de demonstrar origem e conformidade.

Há também uma consequência econômica que merece atenção. Quanto maior o grau de processamento realizado no próprio Estado, maior tende a ser a capacidade de retenção de valor dentro da economia amazonense. Não se trata apenas de vender boi. Trata-se de desenvolver uma cadeia que envolva produtor, assistência técnica, sanidade, transporte, indústria, trabalhadores, serviços e comércio exterior. A exportação, quando sustentada por uma cadeia produtiva estruturada, deixa de ser simplesmente a saída de uma mercadoria e passa a representar uma oportunidade de diversificação econômica. Para um Estado que ainda importa grande parte dos alimentos que consome e que enfrenta custos logísticos elevados, ampliar a capacidade de produzir e agregar valor localmente tem importância que ultrapassa a porteira.

O desafio, portanto, não é colocar o Amazonas em uma corrida para exportar a qualquer preço. É preparar a pecuária amazonense para competir quando as condições estiverem maduras. Isso exige previsibilidade, segurança sanitária, regularização fundiária e ambiental, assistência ao produtor, infraestrutura e investimento privado. Exige também que o crescimento do rebanho seja acompanhado por ganhos de produtividade, porque a dimensão de uma pecuária moderna não se mede somente pela quantidade de animais, mas pela eficiência com que transforma recursos, tecnologia e trabalho em uma proteína valorizada pelo consumidor.

A carne do Amazonas pode encontrar novos mercados, mas o caminho até eles será construído muito antes da primeira carga deixar o Estado. Será construído na propriedade que adota controle sanitário, no produtor que regulariza sua atividade, na estrutura que assegura a rastreabilidade, no frigorífico que atende às exigências de inspeção e na logística que consegue transportar o produto com eficiência. O mundo não compra apenas aquilo que um país produz. Compra aquilo que ele consegue produzir com qualidade, comprovar com segurança e entregar com regularidade.

Para o Amazonas, talvez esteja justamente aí a dimensão mais importante dessa nova fronteira. O objetivo não deve ser apenas ver uma caixa de carne amazonense atravessar a fronteira. Deve ser fazer com que, quando isso acontecer, ela leve consigo o resultado de uma cadeia produtiva madura, profissionalizada e capaz de competir pelo seu espaço. Porque conquistar o mercado internacional não será apenas exportar a carne produzida no Amazonas. Será provar que o Amazonas também pode produzir valor para o mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *