Opinião/Informação:
Tem muito amazonense com boa visão, lucidez e independência de ONGs que poderia assumir a SEMA. A mensagem abaixo é de um deles. Autorizou divulgar, mas ficar no anonimato. Entendo as razões dele. Segue o texto:
A frase de Chico Mendes permanece como uma das críticas mais profundas já feitas ao ambientalismo superficial:
“Ecologia sem luta de classes é jardinagem.”
Ela expõe uma verdade incômoda na Amazônia contemporânea: não existe política ambiental séria quando a proteção da floresta acontece dissociada da dignidade humana, da distribuição de renda, da infraestrutura e da sobrevivência do povo das águas e floresta. No Amazonas, essa contradição é evidente.
O estado é vendido ao mundo como símbolo global da conservação ambiental, mas milhares de famílias ribeirinhas, extrativistas, indígenas e agricultores familiares continuam enfrentando secas extremas, cheias históricas, isolamento logístico, insegurança alimentar e ausência de políticas permanentes de adaptação climática. Quando os rios secam, comunidades ficam sem abastecimento, transporte, combustível e acesso à saúde. Quando as cheias avançam, casas, roçados e sistemas produtivos desaparecem debaixo d’água.
E qual costuma ser a principal resposta do poder público? Distribuição emergencial de cestas básicas. A política climática amazônica frequentemente atua como gerenciamento da crise — não como transformação estrutural da vulnerabilidade social. Fala-se muito em bioeconomia, carbono, governança climática e financiamento verde.
Mas pouco se investe em:
• infraestrutura adaptada às várzeas;
• segurança hídrica comunitária;
• armazenamento de alimentos;
• sistemas produtivos resilientes;
• assistência técnica continuada;
• logística fluvial climática;
• energia descentralizada;
• monitoramento hidrológico comunitário;
• fortalecimento das economias locais da floresta e dos rios.
Na prática, o povo das águas e floresta continua sendo tratado mais como beneficiário de ajuda emergencial do que como sujeito estratégico da política ambiental amazônica. E talvez uma das maiores contradições atuais esteja justamente em certos modelos de mercado climático, especialmente nos projetos de REDD+. A lógica vendida internacionalmente é simples: transformar floresta conservada em crédito de carbono negociável. O problema é que muitos desses projetos acabam reduzindo a complexidade da Amazônia a um único elemento químico: carbono. A floresta deixa de ser vista como território vivo, sociobiodiversidade, cultura, água, alimento e modo de existência.
Passa a ser tratada como estoque contabilizável de CO₂.
É uma simplificação perigosa.
A Amazônia não é apenas carbono em pé.
Ela é:
• regime de chuvas;
• ciclo hidrológico;
• diversidade genética;
• segurança alimentar;
• cultura tradicional;
• conhecimento ancestral;
• soberania territorial;
• estabilidade climática continental.
Quando tudo isso é comprimido em métricas financeiras de carbono, cria-se uma distorção grave: o risco de transformar comunidades tradicionais em mera peça de validação de ativos ambientais negociados globalmente. E o debate está longe de ser consensual. Diversos projetos de REDD+ vêm sendo alvo de críticas técnicas, questionamentos metodológicos e investigações sobre transparência, repartição de benefícios e efetividade socioambiental. No Brasil, inclusive, o Ministério Público Federal já realizou questionamentos sobre contratos, governança e possíveis violações envolvendo comunidades tradicionais em projetos dessa natureza. Em muitos casos, o discurso climático internacional produz mais ativos financeiros do que melhoria concreta na vida das populações locais.
Enquanto isso, o morador da várzea continua:
• sem porto adequado;
• sem acesso permanente à água potável;
• sem política robusta de adaptação;
• sem crédito climático acessível;
• sem assistência técnica contínua;
• sem proteção econômica diante dos eventos extremos.
Há algo profundamente errado nisso.
Países vulneráveis às mudanças climáticas têm demonstrado que adaptação real exige muito mais do que compensação de carbono.
Bangladesh, por exemplo, investiu em infraestrutura resiliente, sistemas locais de alerta e adaptação comunitária permanente para enfrentar enchentes e ciclones.
Na Colômbia, experiências de governança territorial incorporaram comunidades locais no monitoramento climático e na gestão hídrica.
No Peru, programas de manejo comunitário buscaram fortalecer economias locais associadas à floresta, e não apenas transformar conservação em ativo financeiro.
A Amazônia brasileira ainda precisa enfrentar uma pergunta que muitos evitam:
Quem realmente está se beneficiando da economia verde amazônica?
Porque não existe justiça climática quando os recursos circulam globalmente, mas os impactos permanecem concentrados sobre o povo das águas e floresta.
No fim, a frase de Chico Mendes continua atual porque ela atinge o centro do problema:
preservar sem enfrentar desigualdade social é apenas paisagismo ambiental.
Uma floresta em pé sustentada pela precariedade de seus povos não representa desenvolvimento sustentável.
Representa apenas uma versão sofisticada da velha desigualdade amazônica.
Leitor do Portal Thomaz Rural



