Opinião/Informação
Um simples pedido de compra que eu fiz hoje via aplicativo de mensagens revelou um gargalo silencioso, mas devastador, na cadeia produtiva do pirarucu de manejo no Amazonas. Ao tentar adquirir pirarucu seco salgado de manejo — uma iguaria tradicional e de alta durabilidade —, recebi a resposta que expõe a fratura entre a legislação sanitária e a realidade da floresta. “Já faz um bom tempo que o pirarucu de manejo seco salgado deixou de ser produzido (…) a ADAF impôs muitas regras devido à sanidade do pescado“, respondeu a liderança comunitária. O resultado dessa proibição técnica não foi a melhoria da qualidade, mas o efeito reverso: o crescimento exponencial do mercado clandestino.
A Logística da Floresta ignorada pela Burocracia
O coração do problema reside na geografia. O líder relata a situação de oito comunidades manejadoras que dependem de “varadouros” — trilhas na mata que exigem cerca de 1h30 de caminhada carregando a produção até o barco. Neste cenário, transportar o peixe fresco no gelo é fisicamente e economicamente inviável. A técnica ancestral de salgar e secar o peixe é a única forma de conservação possível para garantir que o alimento chegue à cidade. No entanto, as atuais exigências da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (ADAF) tratam a produção artesanal com rigores industriais inalcançáveis para quem vive no interior profundo.
O Paradoxo dos Bilhões: Cadê o Investimento?
A denúncia traz à tona um questionamento incômodo sobre o destino dos fundos internacionais. Enquanto manchetes anunciam bilhões de reais repassados a ONGs para a preservação da Amazônia, as comunidades na ponta da linha continuam desassistidas de infraestrutura básica. Não há beneficiamento, não há financiamento acoplado para adequação às normas e não há tecnologias sociais implantadas. Onde estão os recursos para construir as estruturas mínimas exigidas pela fiscalização? A percepção de quem vive no interior é de que o dinheiro circula em relatórios, mas não se traduz em um defumador adequado ou em logística para o ribeirinho.
Saúde Pública em Risco
Ao inviabilizar a produção legalizada das comunidades manejadoras — que possuem compromisso com a preservação —, o Estado abriu as portas para o “pirarucu clandestino”. Este produto, que hoje inunda as feiras, não passa por nenhum tipo de controle, fiscalização ou boas práticas, colocando a saúde do consumidor em risco real.
O Que Precisa Ser Feito
A solução não é o fim da fiscalização, mas a criação de um “Protocolo de Realidade”. Especialistas e produtores defendem:
- Criação de um padrão sanitário artesanal: Regras específicas pela ADAF que garantam a segurança alimentar sem exigir estruturas industriais de concreto no meio da selva.
- Fomento Direto: O produtor precisa de financiamento acessível para se adequar às normas.
- Valorização do Produto: O pirarucu seco tem alto valor agregado e tempo de prateleira, ideal para exportação e venda interna, gerando renda real.
A ADAF tem a competência técnica e a responsabilidade de responder a essa demanda. É urgente transformar a burocracia punitiva em orientação educativa e fomento, antes que a tradição do pirarucu seco se torne sinônimo exclusivo de ilegalidade.
Tenho certeza que a ADAF tem um posicionamento para esse assunto. O espaço está aberto!
THOMAZ RURAL



2 comentários sobre “Eu fiz um pedido hoje pelo ZAP, a resposta do interior revelou um gargalo silencioso, mas devastador. A ADAF deve ter resposta…”
Meu caro, Thomaz, sobre esse assunto de de sua análise de hoje eu gostaria de trocar uma ideia consigo por telefone. Amanhã, quando você tiver um tempo livre me avise que lhe ligo pra gente conversar, ok?
Agradeço seu contato amigo Rigoberto, vamos nos falar