30 anos do IDAM: por que o futuro da economia do Amazonas ainda não chegou ao interior?

Abaixo, divulgo, na íntegra, artigo da Ana Paula Paiva/IDAM

O Amazonas tem território. Tem floresta. Tem conhecimento técnico. Tem agricultores familiares. Então por que a riqueza ainda não chega ao interior? Essa é a reflexão que proponho neste texto — uma análise técnica, histórica e, sobretudo, comprometida com a realidade do território amazônico. A data é simbólica: os 30 anos do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), celebrados em 18 de março de 2026.

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Mais do que uma comemoração, esse marco nos convida a fazer uma leitura crítica da trajetória construída — e, principalmente, dos desafios que ainda persistem. O livro A Economia Histórica da Amazônia (Evandro Barbosa, 2025) nos lembra de algo essencial: A bioeconomia nunca foi uma promessa na Amazônia — ela sempre existiu como prática viva nos territórios. O que ainda nos desafia é outra coisa: A consolidação de cadeias de valor estruturadas, com identidade territorial, capazes de transformar essa riqueza em desenvolvimento econômico sustentável. É nesse ponto que o IDAM se torna central. Criado em 18 de março de 1996, o Instituto nasce em um momento emblemático da história brasileira. Sob a liderança técnica de João Luiz Hartz (EMBRAPA), ao lado de nomes como Ivo Calado, Luiz Antônio Cruz (EMBRAPA), Alberto Martins de Freitas, Weber Medeiros, Maysa Naice, Rosa Marília, Antônio Peixoto, Geraldo Couto, Antônio Claret, Carlos Magalhães e Airton Schneider — entre muitos outros — e com o apoio político de Amazonino Mendes, o IDAM foi concebido a partir de um raro alinhamento entre ciência e política pública. Tive a honra de iniciar minha trajetória profissional nesse contexto.

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E faço aqui um registro intencional: este texto também é uma homenagem aos técnicos e técnicas que construíram — e seguem construindo — o IDAM no território, muitas vezes em condições desafiadoras, mas com profundo compromisso com o desenvolvimento rural do Amazonas.

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O Instituto surge vinculado à proposta do chamado “3º Ciclo Econômico de Interiorização do Desenvolvimento”. Naquele momento, o Brasil ainda incentivava a expansão da fronteira agrícola. Mas poucos meses depois, um marco muda essa lógica: a Medida Provisória nº 1.511, de 25 de julho de 1996, que passa a restringir a conversão de florestas e reposiciona a Amazônia no centro da agenda ambiental global. O resultado foi um choque de paradigmas.

O modelo produtivo pensado para o sul do estado — baseado em culturas como soja e arroz — não se sustentou nas condições amazônicas. E foi nesse cenário de transição que o IDAM não apenas sobreviveu, mas se consolidou. Mesmo diante de perdas institucionais importantes — como o falecimento precoce do Dr. João Luiz Hartz, em 1998 — e de sucessivas reestruturações, o Instituto construiu, ao longo de três décadas, um dos ativos mais relevantes da política pública rural no estado: presença territorial com capacidade técnica.

Hoje, em 2026, o IDAM está presente nos 62 municípios do Amazonas, com 67 Unidades Locais (UNLOCs).

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Mais do que capilaridade, desenvolveu uma metodologia própria de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), baseada em processos educativos, participativos e conectados à realidade dos agricultores familiares. Sua missão — promover sustentabilidade, cidadania e qualidade de vida no meio rural — permanece atual. Mas é aqui que a pergunta precisa ser feita, com responsabilidade: estamos, de fato, vivendo essa missão em sua plenitude?

Do ponto de vista técnico, três ativos do IDAM são inquestionáveis:

✔ Presença territorial efetiva — inclusive em áreas de difícil acesso.

✔ Corpo técnico qualificado e comprometido com a realidade amazônica.

✔ Demanda crescente por políticas públicas — agricultores mais conscientes, buscando crédito, regularização, assistência técnica e acesso a mercados.

Ainda assim, os dados da SEDECTI (2023) revelam um desequilíbrio estrutural: 78,9% do PIB do estado está concentrado em Manaus. O interior responde por apenas 21,1%. Isso não é apenas um dado econômico. É um diagnóstico territorial. Se queremos, de fato, impulsionar a economia rural do Amazonas no século XXI, precisamos avançar em três direções claras:

🔹 Fortalecer cadeias produtivas agroecológicas e agroflorestais, alinhadas à lógica da floresta em pé.

🔹 Transformar a ATER em eixo estruturante da bioeconomia, conectando assistência técnica, mercado e inovação.

🔹 Interiorizar o desenvolvimento com inteligência territorial, reduzindo a dependência da capital e ampliando a autonomia econômica dos municípios. O IDAM já possui os fundamentos para liderar esse movimento. O desafio agora não é começar. É escalar, integrar e dar centralidade política ao que já funciona.

Porque, no Amazonas, o futuro da economia não está fora da floresta.

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Ele nasce dentro dela.

E passa, necessariamente, pelas mãos dos agricultores familiares — que representam 86,97% dos imóveis rurais no estado (IBGE, 2017). O que está em jogo não é apenas o fortalecimento de uma instituição. É a capacidade do Amazonas de transformar seu território em oportunidade, sua floresta em ativo econômico sustentável e sua população rural em protagonista do desenvolvimento. Este é um debate que precisa ganhar espaço — com técnica, responsabilidade e compromisso com o território. O caminho existe. A base foi construída. Agora, é tempo de decisão.

Ana Paula Paiva – IDAM

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