Opinião/Informação:
FAS, milhões e “esperança”: quando a narrativa não fecha
O slogan do jornal A Crítica diz “de mãos dadas com o povo”, mas a entrevista publicada em 15/02 com o dirigente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) levanta mais dúvidas do que respostas positivas em prol do povo que tanto a ÀCRÍTICA já ajudou ao longo de décadas. Após quase duas décadas de atuação e mais de R$ 500 milhões movimentados, o titular da ONF FAS evita temas centrais e apresenta conclusões frágeis diante do volume de recursos administrados.
O que não foi dito
A entrevista silencia pontos objetivos que deveriam estar no centro do debate público:
- Não divulgou o total de recursos recebidos ao longo dos anos (estimados em R$ 500 milhões).
- Não esclareceu a tentativa de contratação de avião por cerca de R$ 10 milhões.
- Não apresentou nomes de profissionais responsáveis por assistência técnica (agrônomos, pesca e florestal) nas unidades de conservação atendidas.
- Não comentou o processo no Ministério Público Federal no Amazonas envolvendo o crédito de carbono do Projeto Mejuruá.
- Falou em bioeconomia, mas não explicou a relação com recursos do PPBio oriundos das indústrias/ SUFRAMA e operados pela parceira ONG IDESAM. São milhões.
- Não tocou como a ONG nasceu, com apoio de quem e quanto recebeu para iniciar.
Transparência não pode ser apenas palavra repetida — precisa ser verificável.
Contradições e omissões relevantes
A fala pública também apresenta incoerências que merecem reflexão:
- Não disse que é contra o asfaltamento da BR-319, mas fala na possibilidade de mineração, petróleo e gás. Só quem acredita em Papai Noel cai nessa.
- Cita as “auditorias independentes” como selo de legitimidade — argumento frágil, já que auditoria não substitui controle social nem prestação de contas detalhada. Teve auditoria independente no Banco Master, mas deu no que deu.
- Alegação de atuação em 798 comunidades sem que se conheça a real capilaridade operacional — tema que deveria ser investigado pela Assembleia Legislativa do Amazonas. Como vivem essas 798 comunidades? Que produção elas tem?
Planejamento que não aconteceu
Outro ponto sensível é a ausência de instrumentos estruturantes:
- Fala em vocações regionais, mas não fez, nem menciona o ZEE-AM, que é uma ferramenta da Política Nacional de Meio Ambiente.
- Conexão entre bioeconomia e Zona Franca de Manaus aparece como novidade, ignorando que:
- A ZFM existe há quase 60 anos.
- A bioeconomia na Amazônia precede qualquer conceito moderno — é prática ancestral.
Resultados incompatíveis com os recursos
Depois de centenas de milhões aplicados, os exemplos concretos apresentados na entrevista são frágeis e pouco transformadores.
Nem temas emblemáticos foram aprofundados, como:
- O antigo Bolsa Floresta (hoje Guardião da Floresta), com benefícios irrisórios e atrasos relatados.
- Projetos milionários do Fundo Amazônia, como o “Pirão no Prato”, que geram mais dúvida que evidência de impacto.
O legado apresentado: esperança?
Talvez o ponto mais inaceitável da entrevista seja a conclusão: o maior legado teria sido “manter a chama da esperança”. Para quem administrou meio bilhão de reais, isso soa mais como confissão de baixa entrega do que síntese de impacto. Esperança é importante, mas não pode ser o principal indicador de sucesso após duas décadas e centenas de milhões investidos.
A narrativa da logística
Outro elemento recorrente é o uso da palavra “logística” como justificativa implícita para custos elevados. Mas é preciso lembrar: não estamos falando de quinhentos centavos — e sim de quinhentos milhões de reais. Logística explica desafios. Não explica ausência de resultados proporcionais.
Síntese
A entrevista tenta construir uma narrativa institucional positiva, mas evita respostas essenciais. Sem transparência plena, sem métricas claras de impacto e com respostas genéricas diante de cifras bilionárias da agenda amazônica, a conclusão inevitável é: Há mais discurso do que entrega.
E isso precisa ser debatido com seriedade — principalmente em nome do povo que dizem representar.
THOMAZ RURAL





