Opinião/Informação:
“Boa tarde, amigo Thomaz.
Faz um tempo que não tenho comentado suas publicações, mas essa sobre o pirarucu salgado/seco artesanal mexeu comigo. Minha luta sobre isso não é de agora — é de muitos anos. Tenho peregrinado atrás de, pelo menos, uma discussão em nível de Estado para resolver a situação do pirarucu salgado seco artesanal vindo do manejo. Ao longo desse tempo, venho aplicando cursos de salga e secagem em vários municípios, principalmente no Alto Solimões. Esses cursos têm sido fundamentais para que as comunidades consigam produzir de forma artesanal, mas com padrões sanitários satisfatórios. Hoje estou firmando parceria com o CBA para realizar análises bromatológicas e sanitárias do pirarucu salgado seco produzido pelas comunidades após as capacitações. Isso vai provar, tecnicamente, aquilo que já sabemos na prática: é possível produzir com qualidade e segurança mesmo em estruturas simples, desde que haja método, higiene e acompanhamento. Já estive na ADAF, SEPROR, SEDECTI, ADS, provocando — e muitas vezes quase implorando — para que o Estado abra uma discussão séria sobre isso.
O que vemos hoje é uma distorção:
➡️ O manejador e a manejadora recebem exigências altíssimas
➡️ Enquanto isso, nas feiras e mercados (Panair, Manaus Moderna e outros), há pirarucu salgado seco sem padrão sanitário e, muitas vezes, de origem ilegal
➡️ Nesses casos, não há fiscalização, não há cobrança, não há apreensão
A pressão cai justamente sobre quem trabalha de forma organizada, dentro do manejo. E é importante dizer: higiene não é sinônimo de prédio caro. Muitas vezes a estrutura é sofisticada, mas o processo é ruim. Já nas comunidades, mesmo com estrutura simples, quando há orientação correta, a forma de produzir e a qualidade do produto são superiores.
Meu objetivo não é atacar instituições, mas mostrar que é possível adaptar um processo de produção sanitariamente adequado à realidade dos manejadores, com pouco investimento, mas com regras claras, capacitação e monitoramento.
Em Fonte Boa, através do IDSFB, desenvolvemos um padrão que venho replicando em outros municípios ribeirinhos e indígenas. O que falta é:
- Apoio técnico contínuo
- Capacitação
- Acompanhamento da produção
- Reconhecimento oficial de um modelo adaptado à realidade local
Hoje, o pirarucu salgado seco do manejo praticamente não existe no mercado formal. Já o clandestino, existe aos montes — sem padrão sanitário e sem controle.
Muitas comunidades nem conseguem a guia de transporte, porque a ADAF só reconhece produção oriunda de indústrias dentro de padrões que não condizem com a realidade do interior. Alguns municípios vêm avançando com o SIM (Serviço de Inspeção Municipal), e tenho contribuído com isso, sempre buscando um padrão possível, baseado em higiene e segurança suficientes para garantir um alimento adequado ao consumo humano.
Por isso, a parceria com o CBA é tão importante: vamos analisar os produtos e comprovar cientificamente que o pirarucu do manejo, quando passa por capacitação, atende sim aos padrões exigidos.
Isso é o que venho defendendo há anos.
Já tentei articular até um seminário em Manaus para discutir esse tema. Também desenvolvi um modelo físico de unidade de produção, com planta baixa e detalhamento sanitário, pensado para a realidade das comunidades. Esse modelo pode ser construído em terra firme ou flutuante, com custo acessível e dentro de padrões adequados.
Estou pronto para contribuir. Contem comigo.
O manejador não quer privilégio — quer regra justa, possível e que reconheça quem faz certo.”
— Zé Maria, profundo conhecedor do Manejo do Pirarucu
Já falei com o Omena, Ivalney e Rigoberto sobre o assunto. Penso que este relato do Zé Maria é um bom ponto de partida para evitar perdas de tempo e caminharmos para um modelo bom, barato e dentro dos padrões sanitários, como foi feito com o queijo artesanal. Abaixo, a primeira matéria sobre este assunto. Não vou desistir…
THOMAZ RURAL



