Opinião/Informação:
Faz sentido ter feito ARENA sem ter futebol, e PONTE no lugar errado. Lógico que não! As prioridades estão invertidas no Amazonas. Sem estradas, sem energia e sem apoio da Conab e ADS, o “lucro” do produtor vira prejuízo noturno em ramal próximo à BR-319. O Amazonas precisa de ZEE e vicinais, não de estádios vazios e ponte no lugar errado. A cena é de cortar o coração de qualquer um que conhece o valor do suor no campo. Na escuridão de um ramal no Amazonas, iluminado apenas por lanternas e faróis, uma torneira é aberta. Não é água suja que sai dela, é leite. Alimento puro, gelado e pronto para consumo, sendo despejado impiedosamente na lama. O motivo? O isolamento logístico. O caminhão tanque, carregado com mais de 1.500 litros de leite, não conseguiu vencer a lama e a água que cobriam a estrada para chegar a tempo ao laticínio. “Infelizmente, o leite chegou tarde… Tá aí o nosso lucro, sendo jogado fora”, lamenta o produtor enquanto a carga é esvaziada. O relato no vídeo é um grito de socorro e revolta. O produtor destaca que o leite estava na temperatura ideal, fruto de muito trabalho, mas a infraestrutura precária do estado decretou o prejuízo:
“Olha a altura que tá a água por cima da estrada… O leite não chegou a tempo. Por falta de energia, falta de vias, é a estrada… Cadê o poder público? Tá sendo jogado fora.”
Ele ainda reforça a luta diária, citando que batalharam desde as 4 da manhã para tirar o leite, percorrendo 8km de ramal em condições de calamidade, apenas para descartar a produção a 1km da rodovia federal. Enquanto o leite nutre a terra em vez de famílias, fica a pergunta: Onde está a ADS (Agência de Desenvolvimento Sustentável)? A agência, que deveria garantir a comercialização e o escoamento, parece fechar os olhos para a verdade do interior. Não adianta falar em feiras na capital se o produto não consegue sair da porteira. E a Conab do Amazonas? O silêncio é ensurdecedor. Recentemente, vimos a Conab em Brasília agir prontamente para apoiar produtores de leite no Sul do país. Por que a superintendência regional do Amazonas não apresenta as mesmas demandas à presidência nacional? O produtor do Norte é invisível ou de segunda classe? Falta representatividade e sobra esquecimento. Esse desperdício é o sintoma de um estado que errou feio nas prioridades. O povo do Amazonas permitiu a construção da faraônica Arena da Amazônia — um estádio de Copa do Mundo em um estado sem futebol de elite — e de uma Ponte Rio Negro feita no local errado por decisões políticas e não técnicas. Deveria ser ligando à BR-319, e no caso de Iranduba, melhorava o transporte de balsa. Enquanto bilhões foram enterrados em concreto inútil, os ramais e vicinais continuam sendo caminhos de lama que isolam a riqueza do nosso setor primário. O Amazonas não pode mais viver de improviso. Precisamos urgentemente do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE-AM). É ele que vai trazer segurança jurídica e definir onde se pode produzir e, principalmente, onde se deve construir infraestrutura de qualidade. Sem o ZEE e sem priorização de ramais, continuaremos vendo cenas como essa: o trabalhador rural jogando seu lucro fora, no escuro, enquanto o poder público dorme em berço esplêndido.
THOMAZ RURAL


