Opinião/Informação:
De novo, a mesma fórmula fracassada.
A parceria entre MMA, FAS, KfW e a cooperação alemã decide despejar R$ 70 milhões em um modelo que não muda em absolutamente nada a vida de quem preservou a floresta — mas serve perfeitamente aos interesses externos e à manutenção de um sistema que mantém o povo amazônida pobre, dependente e tutelado.
Na prática, trata-se de mais um arranjo para não gerar concorrência aos produtores europeus, especialmente alemães, enquanto se preserva, do lado de cá, a floresta que garante a “vida digna” deles — vida essa que nunca chega a quem mora aqui. O mais grave é ver esse desenho contar com o aval de brasileiros, muitos deles bem remunerados para defender um modelo que não entrega desenvolvimento.
O edital anuncia, com linguagem bonita e vazia, a seleção de “redes regionais para a criação de Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia em territórios estratégicos da Amazônia”. É um discurso pomposo que não se sustenta na realidade. É retórica para justificar a concentração dos recursos nas mãos das ONGs, especialmente da FAS, agora convenientemente rebatizada de “Amazônia”, deixando para trás sua origem no Amazonas.
E aqui está o ponto central:
uma ONG sem capilaridade territorial real não tem condições de atuar com eficácia no Pará, Acre, Amapá e Amazonas. Qualquer cidadão minimamente informado sabe que esse recurso deveria fortalecer os órgãos públicos de ATER, que já existem, têm presença no território e conhecem os produtores. No Amazonas, o caminho lógico seria o IDAM.
Mas isso “não pode”.
Não porque não funcione — mas porque o controle do dinheiro precisa ficar com eles, assim como a definição das atividades, sempre aquelas que não emancipam, não estruturam cadeias produtivas e não geram autonomia econômica. O resultado é conhecido: muita oficina, muito relatório, muito evento e nenhuma transformação estrutural.
É impossível ignorar que essa mesma ONG já administrou centenas de milhões de reais ao longo dos anos, sem jamais apresentar de forma clara e acessível à sociedade os impactos concretos, os resultados econômicos reais e a transparência completa sobre os contratos técnicos realizados. Cobrar isso não é ataque, é dever cívico.
Não sou governador para interromper essa farra institucionalizada, nem parlamentar para instaurar uma CPI — que, diga-se, já deveria ter acontecido. Mas é alentador saber que mensagens vindas do interior já criticam abertamente este edital. Isso mostra que os atores locais estão despertando e entendendo que esse modelo beneficia poucos e não muda a vida de quem vive e protege a floresta.
O mais irônico é que, se esses recursos fossem aplicados no Zoneamento Ecológico-Econômico do Amazonas (ZEE-AM), teríamos base técnica para produzir, conservar e desenvolver de verdade. Mas isso eles não querem. ZEE dá autonomia, planejamento e poder ao Estado — e isso não interessa a quem prefere ONGs fortes e governos fracos.
No fim, sobra a sensação de sempre:
continuam nos tratando como ingênuos, enquanto vendem para fora uma Amazônia “preservada” e mantêm aqui um povo impedido de prosperar.
THOMAZ RURAL






